Artigo Técnico

A IMPORTÂNCIA DA VACINAÇÃO CONTRA AS CLOSTRIDIOSES Parte II TÉTANO - Clostridium tetani

Por Médica Veterinária Monique Dias Tavares | Às 16/08 às 09:55

O tétano é uma das clostridioses mais conhecidas, desde a Grécia Antiga. A primeira menção conhecida de um caso foi por Hipócrates, no Século V a. C. Tem como agente causador, o Clostridium tetani e acomete várias espécies. Entre elas, o próprio ser humano, cães, gatos, equinos, bovinos e primatas não humanos.

Sua multiplicação ocorre por meio de esporos em ambiente de anaerobiose. Não é uma doença contagiosa. Porque só acomete o animal que, por meio de um ferimento não higienizado, foi contaminado pela bactéria acumulada no ambiente.

Os esporos do Clostridium tetani permanecem em um estado de latência, ou de crescimento bem lento, quando estão no ambiente, em contato com o ar. Porém, quando alcançam a circulação sanguínea dos animais através de feridas profundas, perfurações na pele, voltam a se proliferar. Povoam normalmente o trato gastrointestinal de grande parte dos mamíferos. Algumas cepas produzem toxinas mais patogênicas que outras (BÖHNEL & GESSLER, 2010).

Nesse processo de multiplicação, os esporos produzem três toxinas. A que mais apresenta toxicidade é a tetanoespasmina. A segunda mais tóxica é a tetanolisina. A terceira, a neurotoxina não convulsivante, não é muito abordada em textos científicos (TAVARES, 1973).

A tetanoespasmina tem grande especificidade e afinidade com as células do sistema nervoso. Ela não age em outras células. A atuação dessa toxina no sistema nervoso do animal, causa os principais sinais da doença: 1) Movimentação rígida ou rigidez muscular; 2) Espasmos musculares rígidos; 3) Hiperexcitabilidade nervosa; 4) Dificuldade Respiratória; 5) Levantar da cauda. Em alguns casos, são relatadas ocorrência de prolapso da 3ª pálpebra (SUTILI et al, 2010).

Os históricos de convulsões também são relatados. Porém, geralmente estão vinculados ao aumento da sensibilidade nervosa e aos estímulos externos luz e som. O animal apresenta extrema sensibilidade aos estímulos ambientais ao seu redor de som e luz (TAVARES, 1973). Por este motivo, parte dos protocolos de tratamento é deixar o animal em ambiente escuro e silencioso, recebendo fluidoterapia contínua para eliminar o excesso de toxina da circulação.

Apesar da literatura afirmar que a espécie equina é a mais susceptível ao Clostridium tetani, e a espécie bovina um pouco mais resistente (SUTILI et al, 2010), na pecuária de leite e de corte, o Tétano assume importância pelas perdas econômicas que provoca. Em fazendas de cria, está diretamente relacionado a falhas na cura dos umbigos dos bezerros. Assim como, também, à higiene do ambiente onde os bezerros recém nascidos são mantidos.

Nas fazendas que praticam as demais fases do ciclo de produção, o tétano está relacionado a acidentes que causam lesões de pequena extensão, porém profundas, muitas vezes imperceptíveis aos colaboradores responsáveis pelo manejo. O animal se contamina com uma quantidade de cepa patogênica do C. tetani que alcançam tecido não oxigenado e passam a se multiplicar produzindo as toxinas em grande quantidade, a ponto de afetar o sistema nervoso.

Somente após ter as células nervosas comprometidas o animal passa a apresentar os sinais clínicos típicos da doença. Nesse estágio, a situação, em regra, já é irreversível. Pelo fato dos efeitos da tetanoespasmina estarem relacionados a circunstâncias multifatoriais, a velocidade do aparecimento dos sinais também é bastante relativa.

Quanto maior a quantidade de esporos, maior a quantidade de toxina produzida e mais rápida a chegada ao sistema nervoso. Raramente os tratamentos revertem o avanço dos sinais. Então, o animal entra em óbito.

Conhecendo a doença e os sinais, o produtor e os colaboradores precisam se preocupar em realizar a higienização com bastante cuidado de qualquer ferimento nos seus animais. Inclusive os decorrentes de procedimentos cirúrgicos a campo. Como descornas e castrações, além da cura dos umbigos dos bezerros, como já mencionado. O peróxido de hidrogênio, a popular água oxigenada, ainda é o meio mais eficiente para iniciar a higienização de ferimentos profundos para combater o Clostridium tetani (SOUZA et al, 2009).

Tentar manter os pastos limpos, sem materiais metálicos como restos de arames de cercas, fivelas, parafusos, pregos, latas, restos de ossadas, é muito importante. Esse cuidado impede que os bovinos, caracteristicamente curiosos e não seletivos, engulam objetos estranhos a sua dieta causando ferimentos internos no rúmem/retículo (retículoperitonites).

Cuidados com a limpeza dos pastos ou piquetes onde os animais pastam, impede também que sofram lesões ao deitar, ou pisar sobre objetos de ferro ou outro metal. Além de todos esses cuidados, a vacinação é uma medida profilática necessária. Vale à pena investir na proteção do seu rebanho, incorporando vacinas contra clostrídios no calendário sanitário de sua fazenda.

É importante destacar que, verificando o fato do criatório estar localizado em uma região onde as Clostridioses são endêmicas, a vacinação seja praticada em um calendário específico para a região. Como por exemplo, se a vacinação tiver frequência anual em uma região onde raramente ocorrem casos; passar a aplicar a vacina semestralmente, nos locais onde ocorrem mais casos anuais (SOUZA et al, 2009).

No mesmo intuito, nas regiões endêmicas, adotar o protocolo de primovacinação mais cedo, assim que os bezerros desmamam e passam a pastar. Medida essa que promove a manutenção da titulação de anticorpos em um nível ativo e favorável para as defesas das novilhas. Um calendário de vacinação bem implementado na fazenda, assegura uma maior proteção dos animais e, consequentemente, do investimento do produtor.

Referências:

MCVEY, D.S; KENNEDY, M; CHENGAPPA, M.M. Microbiologia Veterinária. Ed. GEN/Guanabara Koogan. 3ª Edição. 2016.

MABONI, F; ASSIS, R.A; VARGAS, APC. Ocorrência de Clostridios Isolados no Estado do Rio Grande do Sul Entre 1988 e 2007. Revista Veterinária e Zootecnia ISSN 0102- 5716. www.researchgate.net/publications//228626888. 2014.

GOMES, M.J.P. Gênero Clostridium spp. FAVET-UFRGS. 2013.

SOUZA, V.F; SOARES, C.O; FERREIRA, S.F. Vacinação, A Importância das Boas Práticas e a Prevenção de Doenças de Interesse em Bovinocultura. Comunicado Técnico Nº 122, ISSN 1983-9731, EMBRAPA Gado de Corte, Campo Grande/MS. 2009.

TAVARES, W. O Clostrídio Tetani e o Tétano. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. Vol. II, Nº 1. Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminente. Rio de Janeiro. 1973

 

Autora: Monique Dias Tavares, Advogada pós graduada em Direito do Estado; Médica Veterinária; pós graduanda em Pecuária Leiteira.

 

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